quinta-feira, março 01, 2007

Um pequenino rimance

num local da cidade cujo nome
não me apetece agora recordar
esquizofrenico poeta desenhava
retratos infantis da sua fome:
passava dia e noite a definhar
e quanto mais escrevia mais calava.

noutro recanto hábil da cidade
sonhava dulcineia o seu amor
mas o poeta só escrevinhava.
dulcineia já pesada de idade
fazia da paciência um lavor:
esperava e esperava e esperava.

mas sabe o povo que quem muito espera
ao desespero se entrega. dulcineia
(embora quem muito ama muito resista)
abriu um dia a jaula à sua fera:
por fim lá se esqueceu da antiga ideia
e a beja foi casar com um camionista.

sobre essa educativa e frágil estória
agora muito tempo se passou.
e embora o tal poeta ainda more
no mesmo beco triste e sem glória
não fez mais versos desde que lhe entrou
em casa o corvo que diz never more.

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